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08/09/2016

Compartilhamento Musical 55

(Pintura: Margaret Dicksee - Handel "pego em flagrante"
por seus pais ao estudar cravo à noite )

Oi, gente!

Fico sempre muito impressionado com iniciativas educacionais envolvendo crianças e arte. Em janeiro de 1998 estive na Europa e entrei em um museu onde a professora fazia perguntas a crianças bem pequenininhas sentadas diante a uma enorme pintura impressionista. Ela perguntava o que elas viam naquele quadro - uma série de vapores que sugeriam um trem. Não entendi bem o que as crianças disseram, mas o rico exercício de exposição à arte e à imaginação me deixou até emocionado à época. Penso que coisas assim deveriam acontecer mais e lamento muito não ser assim no lugar onde moro.

Recentemente, visitando o site do All of Bach (ou “Tudo de Bach” – ver post CM 53), vi outra vez o duo criança-arte e novamente fiquei impressionado e suspirando. Um dos pilares do projeto All of Bach é gravar cada obra de Bach no contexto mais coerente possível com o que se sabe hoje sobre performance histórica. Por exemplo: Se Bach escreveu uma peça sacra para grande orquestra e coro, eles a gravam numa igreja com vários músicos para criar uma atmosfera de grandiosidade; se a obra é uma suíte para um instrumento sem acompanhamento, eles a gravam na sala de estar do músico, para prover a atmosfera íntima, etc. Pois me impressionei com essa coerência quando resolveram gravar as Invenções de Bach, que são obras didáticas, com ALUNOS!

Os holandeses do projeto selecionaram estudantes de piano, dentre crianças e adolescentes, e cada um ficou responsável por uma ou mais invenções de Bach. Como estavam acostumados apenas com o piano moderno, receberam aulas básicas de cravo com especialistas no instrumento. Três meses depois, o projeto se encerrou com um recital das 15 que chamamos aqui no Brasil de “Invenções a Duas Vozes”.

Assistindo aos bastidores do projeto no site, foi muito agradável ver o envolvimento dos pais, tanto encorajando os filhos quanto compartilhando reações de descoberta do repertório e do inusitado instrumento musical. (Se você não conhece o cravo, leia o post CM 30).Que maravilha ouvir essas crianças tocando a obra de Bach! Já ouvi gravações em piano e em cravo feitas por profissionais com anos de estrada, mas há algo de precioso ao ouvir esses jovens iniciantes abordando esse repertório.

Em vez de explicar o que é uma invenção, vou deixar que os próprios alunos façam isso. (Peço desculpas por qualquer imperfeição técnica nos vídeos legendados; os vídeos com as performances estão com qualidade melhor.)



O QUE SÃO AS INVENÇÕES DE BACH?

Eles também compartilham seu estranhamento com o cravo estando acostumados apenas com o piano.


O QUE É UM CRAVO?

Agora, vamos à musica! Selecionei 4 invenções. Espero que vocês gostem tanto quanto eu gostei. Quem quiser mais, o recital está disponível na íntegra, bem como os bastidores (em inglês), em www.allofbach.com.


Invenção No. 1, em dó maior
Anna Kuvshinov (9 anos)

Invenção No. 4, em ré menor
Kanji Daito (10 anos)

 Invenção No. 15, em si menor
Domonkos Hegyi (11 anos)

 
Invenção No. 8, em fá maior
Frank Monster (15 anos) 
Deixe seu comentário.

Abraço,
Renato

10/02/2016

Compartilhamento Musical 53

Oi, gente!

Descobri um novo site sobre Bach. Em janeiro, um amigo perguntou: “Você já foi no All of Bach?”, que, em inglês, quer dizer  “Tudo de Bach”. Ora, vocês já sabem que, para mim, basta dizer “Bach” para conseguir minha atenção. Se disser "Tudo de Bach”, você consegue minha atenção por um tempo bem maior...

É um projeto da Sociedade Bach da Holanda que pretende festejar seus 100 anos de existência (que farão em 2021-2022) gravando toda a obra de Bach e a disponibilizando em um formato acessível – vídeo online, gratuitamente. O projeto se iniciou em setembro de 2013 e começou a publicar os vídeos em maio de 2014. Desde então, toda sexta-feira é dia de postarem novas gravações. Mas não são apenas as obras que são postadas, há vídeos de entrevistas com os músicos, informações sobre a obra e até um fórum, onde você pode compartilhar sua reação após ouvir a música. Tudo está disponível em inglês ou holandês. Segundo Jos van Veldhoven, diretor artístico:


“Desta forma podemos envolver as pessoas no modo em que nós trabalhamos e permiti-las descobrir como fazer soar o som de Bach. É um presente para o mundo. [grifo meu] Porque quer você esteja na Coréia praticando o Minueto em sol menor pela primeira vez, ou viva em Appingedam e esteja fascinado por fugas em quatro vozes, você estará distante apenas a uns poucos cliques de mouse da informação que está procurando.”

Hoje compartilho o Concerto de Brandemburgo 4 publicado pelo site (http://allofbach.com/en/). Em um concerto, há um (ou mais) instrumento(s) que dialoga(m) com o restante da orquestra (ver CM 11). No caso deste concerto, são três os instrumentos que compõem o concertino: duas flautas doces e um violino, mas o curioso é que nem sempre eles estão no papel de solista. Há horas em que claramente se percebe que as flautas doces estão no comando (Heiko ter Schegget e Benny Aghassi); há horas em que estão apenas acompanhando. Há uma hora em que o violino (Shunske Sato) “rouba a cena”; há horas em que é simplesmente “mais um”. Note também que, nesta interpretação, o dirigente (o violinista) escolheu um músico por parte, ou seja, em vez de vários músicos tocarem a parte do violino 1, há apenas um, como há apenas um para o violino 2, apenas um para a viola, etc. Acho que dava para fazer um belo som também com um pouco mais de músicos, mas definitivamente eles me convenceram!

Fiquei impressionado com a qualidade musical da interpretação! Como de praxe entre eles, estão tocando com instrumentos de época (ou réplicas) e buscam aplicar uma técnica de performance musical informada por pesquisas históricas. Meu professor de flauta doce estudou na Holanda e assistir esse vídeo é como ouvir suas considerações sobre fraseado e articulação. Que escolhas bem acertadas as desse grupo de músicos! Aproveite o vídeo e, digo sem receio de perder meu público para a “concorrência”: Vá ao site e o aproveite também!



Como é costume aqui no blog, compartilho quando adquiro nova flauta.



Esta é uma contralto da fábrica alemã Moeck, afinada em 442 Hz e feita na madeira grenadilha. É uma estrangeira que ganhei em novembro passado e que ainda está se adaptando ao clima de nossa terrinha.

Abraço,
Renato
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29/03/2014

Compartilhamento Musical 48

Oi, gente.

Depois de um tempo excessivamente longo, recuperando-me de uma cirurgia na coluna, volto às postagens. Para o retorno, o primeiro movimento, a Allemande, da Partita para flauta solo de Bach, BWV 1013. O termo Partita originalmente se referia à música para um instrumento solo, mas compositores como Kuhnau e Bach a associaram a uma seqüência de peças musicais, como sinônimo para “suíte”.

A versão que compartilho hoje é na flauta doce e foi gravada em uma competição. Jan Van Hoecke nos mostra o que eu já disse antes aqui no blog: Quando uma peça para instrumento solo é bem escrita, não há necessidade de acompanhamento. A música se sustenta em seu contexto próprio e você não sente falta de nada! (Veja CM 5 e CM 19).



 

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Abraço,
Renato

24/08/2013

Compartilhamento Musical 45 (5 anos!!!)

Oi, gente.

No último dia 1 de agosto, o Compartilhamento Musical completou 5 anos! Como de costume, gosto de compartilhar trechos da Paixão Segundo Mateus, de Bach para celebrarmos! (Para ler os posts de aniversário escritos até agora, clique em CM 1, CM 15, CM 26 e CM 38.)

No trecho que compartilho hoje, Jesus anuncia que será traído. O coro, no papel dos discípulos, pergunta: “Porventura, sou eu, Senhor!” Apesar de sabermos que é Judas Iscariotes, ouvimos o coro a meditar: “Sou eu! Eu deveria pagar...” Percebam o dinamismo com o qual Bach retrata este momento tenso da narrativa do Evangelho!

Longa vida a este espaço da boa música!


 

Evangelista – Jörg Dürmüller (tenor)
Jesus – Ekkehard Abele (baixo)
Judas – Klaus Mertens (baixo)
The Amsterdam Baroque Orchestra & Choir
Regente: Ton Koopman (ao órgão)


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Abraço,
Renato

 A TEMPO...

Como já é costume toda vez que eu adquiro uma nova flauta, compartilho agora, meio atrasado, a aquisição de minha primeira flauta doce soprano de madeira. Recebi-a do luthier Marcos Ximenes em novembro de 2012.


A flauta, afinada em 440Hz, foi feita em madeira Cocobolo (Jacarandá do México) e é baseado em um modelo de Robert Wijne. Atualmente estou estudando com esta flauta uma obra do compositor Johann Cristoph Pepusch (1667 - 1752).

Marcos Ximenes mudou seu site. Já atualizei o link nos posts antigos em que o menciono (CM 25, CM 38). Para visitar o novo site, clique aqui.

18/05/2013

Compartilhamento Musical 43

Oi, gente.

Hoje quero compartilhar uma faixa de um DVD que adquiri já faz um bom tempo. Traz a Akademie für Alte Musik Berlin (ou ‘Academia de Música Antiga de Berlin’), que é uma orquestra que toca com instrumentos ou cópias de época. Eles são excelentes! Aquele som “barrocão” cheio e gostoso de ouvir! Cordas feitas de tripas de animais, sabia?

O DVD de onde tirei essa faixa apresenta os motetos de Bach, que são obras vocais sacras, que não compartilharei hoje embora pretenda no futuro. Entre um moteto e outro, no DVD, a orquestra apresenta uma peça instrumental retirada de cantatas de Bach. Esta, por exemplo, é a que abre a Cantata BWV 35.

Bach costumava “reaproveitar” material previamente composto. No caso de hoje, este ‘Concerto’ (ou ‘Sinfonia’) é o mesmo material do conhecido concerto para cravo e orquestra BWV 1052, que, por sua vez, é uma reconstrução do que pode ter sido originalmente um concerto para violino ou oboé.

Nesta versão, o solo fica por conta do organista. Perceba que ele toca um órgão de pequeno porte. Mesmo assim, o som da obra enche toda essa igreja em Berlim, onde o vídeo foi gravado. A música é muito empolgante! Eu gosto particularmente do trecho que se inicia em 6:00 e parece nos levar a regiões ainda não exploradas pela música até aquele momento. Uma viagem! E depois, a volta ao tema, em 6:45. Gosto muito dessa orquestra e recomendo suas gravações, especialmente a dos Concertos de Brandemburgo, também de Bach. O regente hoje é Hans-Christoph Rademann.

Bom proveito!



 

Deixe seu comentário!

Abraço,
Renato

31/08/2012

Compartilhamento Musical 38 (4 anos!!!)

Philipp Herreweghe

Oi, gente!

Antes que o mês de agosto acabe, gostaria de comemorar com vocês os 4 anos do Compartilhamento Musical! Hoje temos 280 inscritos na lista do Blog, que recebem um lembrete toda vez que posto algo novo. Gostaria muito de poder ser um blogueiro mais freqüente, mas até agora a produção está subordinada a meu tempo livre, que não é muito. Mesmo assim, o trabalho continua sendo feito com a mesma seriedade do início, 1 de agosto de 2008. Espero que tenha sido de valia aos curiosos pela música erudita.

Como tem sido o costume (à exceção do ano passado, que, infelizmente, deixei passar em branco), gosto de postar no aniversário do CM trechos da Paixão Segundo Mateus, de Johann Sebastian Bach, pois foi a obra que deu início aos Compartilhamentos. (Para ler os posts de aniversário escritos até agora, clique em CM 1, CM 15 e CM 26.)

O trecho que escolhi para hoje foi a abertura da “Paixão...”. Nela, percebe-se a imensa carga dramática que Bach delegou à música, que espelha, obviamente, toda a solenidade do sofrimento do Senhor Jesus Cristo, o Salvador, em seus momentos finais do ministério em sua primeira vinda.

Bach usa dois coros e duas orquestras. Perceba a organização deles na sala de concertos da Filarmônica de Köln (que tive o privilégio de visitar em 1998), no vídeo: um coro à esquerda e um à direita, envolvidos em perguntas e respostas (ex.: coro I “Vede!”; coro II “Quem?”; coro I “O noivo!”). Se você tiver um bom equipamento, perceberá isso mais nitidamente a partir de 3:12, bem como em vários outros momentos. Há também um grupo de sopranos entre os dois coros. Elas estão a cargo do ‘cantus firmus’, que costumava ser uma melodia já conhecida, com notas geralmente longas, e que servia de coluna vertebral para o desenvolvimento da polifonia da obra.
No vídeo, pus a tradução do cantus firmus entre colchetes para distingui-lo das demais vozes. (Alternativamente, na execução desta obra, alguns regentes optam por um coral com crianças para fazer a parte do cantus firmus. Fica lindíssimo o contraste entre os adultos dos dois coros e as vozes dos miudinhos!)

Quem conduz a execução hoje é um regente que admiro muito: o belga Philipp Herreweghe. Esse senhor, de nome difícil de pronunciar, iniciou seus estudos em medicina, preparando-se para uma carreira em psiquiatria na Universidade de Gent, ao mesmo tempo em que estudava no Conservatório de Gent. Começou seu trabalho como regente durante esse período, mas em 1970 fundou o Collegium Vocale Gent (o coro do vídeo de hoje) e decidiu deixar a medicina. Tornou-se um regente respeitadíssimo e é considerado um dos grandes especialistas em Bach. É um de meus favoritos, com certeza!




Aproveito a oportunidade de aniversário para compartilhar também o recebimento de minha segunda flauta doce de madeira.

Desta vez, uma contralto feita em Cocobolo, também chamada de Jacarandá do México, modelo Bressan, com o lá afinado em 415Hz, que costuma ser uma afinação apropriada para tocar repertório barroco.
Mais um trabalho excelente do luthier Marcos Ximenes!

Deixe seu comentário.

Grande abraço,
Renato

23/08/2011

Compartilhamento Musical 33

Oi, gente!

Confesso de cara: Sou louco pela música de J. S. Bach! Recentemente assisti ao concerto do “Proms” de 2010 dedicado a Bach. O “Bach Day”, com a Royal Philharmonic Orchestra (que eu costumo de chamar de ‘a orquestra da Rainha’), apresentou a música de Bach em arranjos para orquestra sinfônica e também obras inspiradas nas obras de Bach. O vídeo é fantástico e foi difícil resistir à vontade de compartilhar todo o programa de uma vez aqui no blog.

Compartilho hoje um arranjo da famosa Tocata e Fuga em Ré menor, originalmente composta para órgão (Tocata já compartilhada no adendo do CM 7). Aqui, apresento o arranjo feito por Leopold Stokowski para grande orquestra. Talvez os mais nostálgicos vão lembrar do filme “Fantasia”, de 1940, em que o próprio Stokowski rege o seu arranjo de Bach. Apesar de gostar de algumas partes do filme “Fantasia”, prefiro esta interpretação menos afetada de Andrew Litton nessa noite do “Proms” de 2010.

Primeiro, percebam que sala de concertos maravilhosa é a Royal Albert Hall! Durante o vídeo, há algumas panorâmicas da sala, inaugurada em 1871 pela Rainha Victoria, que a dedicou à memória de seu falecido esposo, o Príncipe Albert. (Os mais curiosos assistam ao filme “A Jovem Rainha Victoria”.)

Percebam também o colorido que Stokovski, como arranjador, soube muito bem aproveitar do original para órgão. Tenho a tendência de preferir as obras originais, mas também gosto de elogiar uma orquestração bem feita. E essa certamente é uma!

A tempo: O “Proms” é um festival de música clássica que ocorre em Londres, predominantemente na Royal Albert Hall, com concertos diários durante oito semanas no verão. A tradição se iniciou em 1895. Em 2009, o número de concertos chegou a 100. O evento tem cobertura da BBC.

Gostaria muito de saber o que você achou depois de apreciar a obra. Deixe seu comentário após ver o vídeo.



Abraço,
Renato

01/05/2011

Compartilhamento Musical 31

Oi, gente!

O Concerto para Violino, Oboé, cordas e contínuo, BWV 1060R, de Johann Sebastian Bach não existe em sua forma original. Sobrevive até hoje apenas um arranjo que o próprio Bach fez, substituindo os dois instrumentos solistas por dois cravos. A partitura reconstruída que temos hoje veio desse arranjo.

O concerto tem três movimentos, que ouviremos aqui na interpretação do excêntrico Nigel Kennedy, fazendo par com Aisling Casey. Ambos são acompanhados pela Orquestra de Câmara Irlandesa.

O elemento de concerto (ver CM 11) é realizado em duas esferas. Numa, os solistas dialogam entre si, enquanto que, noutra, eles se juntam e conversam com a orquestra. Isso vale pelo menos para os dois movimentos rápidos (o primeiro e o terceiro).



No movimento lento (o segundo), o papel da orquestra é fornecer um pano de fundo para um intrincada troca de perguntas e respostas entre os solistas. Este movimento é, para mim, muito especial. Conheci o concerto por este movimento. Estava na casa de um amigo, que me disse de repente: “Tenho algo para te mostrar.” Fomos a um quarto onde sua família usava como depósito e lá estava um aparelho de som antigo, onde ele colocou um LP para tocar. Limpou a agulha da vitrola com um sopro e pôs o segundo movimento desta obra, que eu nunca tinha ouvido. Em meio à musica e aos charmosíssimos chiados do vinil, fiquei paralisado até o fim. Não tinha como descrever com palavras o que eu sentia. O diálogo entre o violino e o oboé era uma coisa muito linda e profunda. A orquestra acompanhando em pizzicato dava uma atmosfera de grandeza e ao mesmo tempo de intimidade ao momento musical. Nunca vou me esquecer da primeira vez que ouvi isso.



O concerto termina com outro movimento rápido, bem empolgante. Na minha opinião, Kennedy e seu grupo tocam mais rápido do que deveria ser, mas são coerentes e retratam bem a empolgação do fim da obra. A propósito, Nigel Kennedy ficou famoso na década de 80 justamente por suas idiossincrasias musicais e seu jeito de se portar em público. Mas apesar das diversas críticas que recebeu (e ainda recebe), ele é um músico de primeira!



Deixe seu comentário após ver o vídeo.

Abraço,
Renato

P.S.: Uma breve palavra sobre o vídeo escolhido: Embora Kennedy e Casey sejam excelentes músicos e estejam acompanhados de uma excelente orquestra, confesso que prefiro outras gravações e não considero esta interpretação como sendo de referência. Os músicos tocam instrumentos modernos e tenho a tendência de valorizar mais uma interpretação historicamente orientada, com instrumentos (ou cópias) de época, com técnicas barrocas de performance. Isso de forma nenhuma diminui o valor do talento musical do grupo que postei aqui, mas recomendo que vocês ouçam outras gravações. A razão de eu não ter postado outra é a pobre qualidade de som dos vídeos que encontrei. Mesmo assim, dêem uma olhada na excelente performance conduzida por Nikolaus Harnoncourt, gravada em 1984 (links abaixo). No futuro, se eu conseguir material com qualidade de som e imagem melhor, repostarei o concerto com prazer.

http://www.youtube.com/watch?v=b0Xd0M15464
http://www.youtube.com/watch?v=Xpw-VPlCJro
http://www.youtube.com/watch?v=mLXvJZdY7Iw

08/03/2011

Compartilhamento Musical 30

Oi, gente!

No Compartilhamento Musical 28, sobre Rameau, uma leitora se assombrou com aquele instrumento de teclado que nunca tinha visto nem ouvido: o cravo. Prometi a ela que dedicaria o próximo CM ao instrumento.

Todo mundo sabe reconhecer um piano. No entanto, já é um pouco difícil dizer o mesmo a respeito do cravo, instrumento muito presente na época do Barroco. Pode ser que você veja um e pense que é um piano. Uma diferença importante entre os dois instrumentos é o mecanismo através do qual o som é produzido. As cordas de um piano são percutidas por uma espécie de martelo, que é acionado quando o músico pressiona uma tecla. Já no cravo, as cordas são percutidas após o toque de uma tecla, mas o mecanismo belisca a corda em vez de martelá-la. Uma conseqüência disso tem a ver com dinâmica do som. Enquanto no piano o músico pode obter um som forte ou suave, dependendo da força que aplica sobre a tecla, no cravo obtemos sempre a mesma intensidade, devido à diferença no mecanismo de produção do som. Para suprir essa limitação, alguns cravos têm jogos de cordas diferentes, que associam-se a teclados diferentes num mesmo instrumento. Por exemplo, em um mesmo cravo, podemos obter um som rico e vigoroso usando o teclado principal e, logo acima deste, outro teclado é usado para obterem-se sons mais suaves.

Alguns pensam que o cravo é o antecessor do piano. Eu também sou culpado, pois passei a vida dizendo isso, mas descobri recentemente que não é verdade (História da Música Ocidental – Jean & Brigitte Massin, Editora Nova Fronteira). São apenas primos com um ancestral comum: um instrumento chamado saltério, derivado da harpa, que podia ser arranhado com a unha ou com um plectro (uma espécie de palheta). O piano descende do saltério via um instrumento chamado dulcimer, que era percutido por pequenos martelos. Ao dulcimer acrescentou-se um teclado, com transmissão direta entre a tecla e o martelo. Daí originou-se o pianoforte, em meados do século XVIII. O piano suplantou o cravo porque correspondia a certo tipo de sensibilidade própria ao final do século. O cravo também descende do saltério, mas tem uma linhagem diferente. Vem da espineta, que introduziu um mecanismo ao saltério que lhe arranhava as cordas. No século XVI, da espineta veio o cravo, que também poderia ter um segundo teclado, trazendo a possibilidade de mudança de registro, como descrevemos acima.

Abaixo você pode visualizar os instrumentos que deram origem ao cravo e ao piano. Tratam-se de exemplos, pois cada instrumento pode se apresentar com aparências diversas:


Exemplo de harpa


Exemplo de saltério


O dulcimer descende do saltério e deu origem ao pianoforte. Por esta foto, obviamente, é difícil perceber isso, pois houve ainda vários estágios entre o instrumento aqui apresentado e o que hoje conhecemos como piano.


A espineta descende do saltério e deu origem ao cravo. Dá até para fazer um exercício de imaginação e tentar 'ver' uma harpa dentro desta espineta.

Hoje ouviremos Ton Koopman interpretando o primeiro dos três movimentos da Tocata BWV 916, em Sol maior, de Johann Sebastian Bach, ao cravo.


Aproveitem!



Deixe seu comentário após ver o vídeo.

Abraço,
Renato

24/12/2010

Compartilhamento Musical 29

Oi, gente!

Como é de costume no fim de dezembro, gosto de compartilhar partes do Oratório de Natal de Johann Sebastian Bach, BWV 248. Para uma introdução a esta obra, visite o CM 8.

Neste ano, resolvi postar um trecho maior: os quatro movimentos iniciais da quinta cantata do Oratório, originalmente apresentada no primeiro domingo do ano novo em 1735, durante o culto matutino na Nikolaikirche. A cantata retrata a viagem dos magos do oriente e sua adoração ao Salvador, Jesus.

I - Coro de abertura – Trata-se de uma explosão de louvor e gratidão a Deus por ter enviado ao mundo o Salvador.

II – Recitativo (tenor) – Passagem do Evangelho de Mateus a respeito dos magos do oriente

III – Coro e Recitativo (contralto) – O recitativo da contralto interrompe os magos, que buscam o Rei dos Judeus, dizendo “Busque-O em meu peito”. A contralto explica que este Rei dos Judeus é a luz que também veio para os gentios.

IV – Coral – Trata-se de um hino a Jesus, que transforma as trevas em luz.

A cantata prossegue com mais sete movimentos, dentre eles, uma ária, um trio, outros recitativos e um coral finalizando a obra. Quem tiver a oportunidade, escute a cantata na íntegra. Aliás, escute o Oratório todo; é música de excelente qualidade!

Meditem nas verdades apresentadas na letra deste trecho tão bem trabalhado por Bach!



Christoph Genz – tenor (evangelista)
Bernarda Fink – contralto
Monteverdi Choir
English Baroque Soloists
Sir John Eliot Gardiner – regente

Deixe seu comentário após ver o vídeo.

Abraço,
Renato

29/08/2010

Compartilhamento Musical 26 (2 anos!!!)

(Edição Comemorativa de Aniversário)

Oi, gente!

Os dois últimos posts me empolgaram tanto, que cheguei a esquecer: No início de agosto, o Blog dos Compartilhamentos Musicais completou dois anos! E, como tem sido a “tradição”, vou compartilhar mais um trecho da Paixão Segundo Mateus, de J. S. Bach. (Para uma introdução sobre a “Paixão”, leia o CM 15.)

No trecho de hoje, Pilatos acabara de perguntar aos judeus quem preferiam libertar: Jesus, ou Barrabás. Eles escolheram Barrabás e clamaram pela crucificação de Jesus. “Que mal fez ele? Perguntou Pilatos.” Então, um recitativo de soprano (No. 48) responde, contrastanto drasticamente com o ódio demonstrado pelos judeus:

Ele fez o bem a todos nós,
Ele deu visão aos cegos,
Ele fez os aleijados andarem,
Ele nos falou a Palavra de seu Pai,
Ele expulsou demônios,
Ele consolou os aflitos,
Ele acolheu os pecadores,
Foi isso o que Jesus fez.

Em seguida, vem a ária No. 49, “Aus Liebe” (“Por Amor”), uma de minhas favoritas na obra. Lembro-me de tê-la ouvido pela primeira vez no feriado de Semana Santa de 1998, quando ainda não era Cristão, e fiquei impressionado. Espero que você medite na verdade cantada aqui tanto como eu fiz naquela época, e seja alvo desse amor.




Cornelia Samuelis (soprano)
Amsterdam Baroque Orchestra and Choir
Ton Koopman

Abraço,

Renato

22/07/2010

Compartilhamento Musical 24

Oi, gente!

Estamos presenciando um fato interessantíssimo na música! Pesquisas recentes levaram ao ressurgimento de um instrumento musical chamado Violoncello da Spalla.

Há algumas décadas, o famoso violinista Sigiswald Kuijken teve papel fundamental no re-estabelecimento da técnica barroca de tocar violino. Em 1972 fundou a orquestra La Petite Bande, especialista em repertório barroco com instrumentos de época. (Você pode ouvi-los no Compartilhamento Musical 1.) Um ávido incentivador da chamada “performance historicamente orientada”, Kuijken começou a suspeitar que o que se sabia a respeito do violoncelo no período Barroco talvez merecesse reconsideração. Veja o seguinte trecho de uma entrevista:

“Normalmente, a parte do baixo era escrita ‘basso’ ou ‘basso continuo’ ou ‘violone’, e sempre assumimos que isso significava violoncelo. Agora eu acho que é hora de reconhecer que isso está errado e que não significa violoncelo, pelo menos não no sentido histórico restrito. Em definições de ‘violoncello’ em léxicos alemães e franceses de até mais ou menos 1730, ou mesmo depois, você somente acha menção de violoncelo sendo tocado da spalla, ou ‘no ombro’. Em Veneza e Bolonha, você pode achar pinturas em igrejas de músicos que tocam dessa forma. É quase tão grande quanto nosso violoncelo de hoje e é tocado como uma viola, obviamente não embaixo do queixo ou sobre o ombro esquerdo, o que seria impossível, mas contra o ombro direito com uma cinta ao redor do pescoço do músico. Os exemplos maiores vão além do ombro direito... (...) O instrumento é posicionado quase horizontalmente e ressoa de um modo totalmente diferente do violoncelo tradicional. (...)… em seu célèbre método [para tocar violino], Leopold Mozart nos diz que a Viola da Gamba é tocada entre as pernas, explicando que ‘hoje, até mesmo o violoncelo é tocado de tal forma’, o que implica que anteriormente não era.” (retirado do site Early Music World)

Em 2003, Kuijken indagou ao luthier Dmitry Badiarov sobre a possibilidade de reconstrução da “viola pomposa” (outro nome usado para se referir ao instrumento; às vezes encontro os termos “viola da spalla” e “violoncello piccolo da spalla”). Badiarov disse que, teoricamente, era possível. Juntamente com o construtor de cordas Mimmo Peruffo, Badiarov conseguiu trabalhar no instrumento, que hoje já pode ser ouvido em alguns CDs. O ressurgimento do instrumento foi um dos motivos que levou Masaaki Suzuki a regravar os Concertos de Brandemburgo. O próprio Sigiswald Kuijken, gravou as 6 suites de Bach, que hoje conhecemos como “6 Suites para Violoncelo Solo”, com o Violoncelo da Spalla. Ele acredita que este foi o instrumento para o qual Bach escreveu as suítes.

No vídeo que compartilho hoje, Kuijken aparece em um programa de televisão e toca trechos da Suíte No. 1. Aqui você vai poder ouvir o terceiro movimento. Deleite-se com o som desse novo velho instrumento!



Abraço,
Renato

P.S.: Há outros vídeos deste mesmo programa de TV disponíveis no YouTube: o Prelúdio da mesma Suíte e uma entrevista que Kuijken dá logo após a Courante aqui compartilhada. Acho que está em holandês. Se você entende essa língua...

A gravura acima foi feita por um violoncelista, um dos membros fundadores da Accademia Filarmonica di Bologna. Ele faz um desenho em uma das partituras do violoncelo do Opus 4 de Torelli. Note as dimensões do instrumento e seu posicionamento.

O luthier Dmitry Badiarov e a postura adotada atualmente

25/12/2009

Compartilhamento Musical 17

No Natal do ano passado compartilhei a empolgante abertura do Oratório de Natal de Johann Sebastian Bach, BWV 248. Neste ano, continuaremos com a mesma obra. Desta vez, estou postando um trecho da segunda cantata do Oratório, que descreve a anunciação dos anjos aos pastores. Escolhi a abertura instrumental, uma “sinfonia” pastoral, na qual os oboés d’amore e os oboés da caccia fazem parte de uma orquestração que simboliza os pastores nos campos guardando seus rebanhos. A música é uma espécie de prelúdio para a anunciação dos anjos em seguida: “...é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor.” (Lucas 2.11)

Já disse em outros CMs que gosto de ter a liberdade de visualizar coisas na música. Antes de ler a respeito da instrumentação desta “sinfonia” e de sua finalidade, sempre a ouvi com uma interpretação pessoal bem peculiar - como uma canção de ninar para o menino Jesus. Seu ritmo “ternário” (tecnicamente, é 12/8) sempre me pareceu embalar o sono do Rei na manjedoura. Ao mesmo tempo, dentro desta interpretação bem diferente, essa não é uma canção de ninar convencional: A música chega a ter graus de tensão que me projetam para o ministério de Cristo na sua paixão... Em outras palavras, em alguns momentos (um leve mistério em 0:53, que vai se desenvolvendo aqui acolá e tem clímax de tensão entre 2:55 e 3:31), consigo perceber uma espécie de prenúncio da cruz já no berço do Salvador recém chegado ao nosso mundo.

Aproveitem esse trecho belíssimo na interpretação de Nikolaus Harnoncourt regendo a Concertus Musicus Wien.



Grande abraço!
Renato

P.S.: Para os mais curiosos, percebam os dois tipos de oboé que Bach escolheu para orquestrar esse trecho. Em 0:43, você pode ver os oboés do tipo d’amore (do amor), um pouco maior e com um timbre mais suave que o do oboé comum. Em 3:52, há um trecho significativo em que aparecem os oboés do tipo da caccia (da caça). Os oboés da caccia desapareceram de circulação após o período barroco. Tudo indica que apenas dois sobreviveram e que foram usados para reconstruir o instrumento na década de 70, quando o próprio Nikolaus Harnoncourt, juntamente com Gustav Leonhardt e outros, encabeçava o movimento de música com instrumentos autênticos. Segundo li, Harnoncourt encomendou oboés da caccia para sua primeira gravação do Oratório de Natal em 1973.

02/08/2009

Compartilhamento Musical 15 (1 ano!!!)

(Edição Comemorativa de Aniversário)

No dia 1 de agosto de 2008, enviei o primeiro Compartilhamento Musical a cinco amigos. A coisa cresceu! Um ano depois, temos uma lista de emails com 167 destinatários e sei que alguns destes re-enviam os CMs a vários outros. Para comemorar um ano de CM, achei uma boa idéia revisitar a mesma obra que compartilhei no início: a Paixão Segundo Mateus, de Johann Sebastian Bach.


Uma “paixão” é uma composição musical sobre o sofrimento de Jesus Cristo. Várias “paixões” foram compostas, mas indubitavelmente a “Matthäuspassion” de Bach é a mais famosa e respeitada. O texto-base é o Evangelho Segundo Mateus. Um tenor, designado “evangelista”, narra os eventos bíblicos em estilo recitativo, que soa como algo entre o canto e a fala. Os solistas cantam as palavras de vários personagens bíblicos. Além disso, há também textos intercalados, cantados pelos solistas, que interpretam ou aplicam de modo pessoal as passagens narradas nos recitativos. Quando há vários falantes, o coro entra em ação, ora participando da narrativa bíblica, ora comentando-a.

No trecho que compartilho hoje, Jesus havia sido preso e levado à casa do sumo-sacerdote, onde procuravam condená-lo à morte. Do lado de fora, Pedro o segue de longe, quando desconfiam que ele é um dos discípulos. Pedro nega que é seguidor de Cristo e o galo canta, conforme Jesus havia predito. Pedro se retira e chora amargamente, arrependido.

A narrativa acima é apresentada em forma de recitativo, mas quero focar mesmo é no que acontece em seguida. Uma voz de contralto canta como se fosse o pranto de Pedro após negar a Cristo. É a ária Erbarme dich (Tem misericórdia de mim). Trata-se de um dos momentos mais marcantes da obra. A música é tão intensa que às vezes, quando escuto a introdução do violino solista, começo a olhar para dentro de mim e me confrontar. Eu diria com firmeza que é um dos momentos mais sublimes de toda a história da música. Você pode perceber um pouquinho da solenidade desse trecho no semblante de alguns músicos da orquestra no vídeo, logo após o evangelista cantar as palavras “...e chorou amargamente”.

Boa reflexão!



Evangelista – Jörg Dürmüller (tenor)
Pedro – Klaus Mertens (baixo)
Criada 1 – Cornelia Samuelis (soprano)
Criada 2 + solista em Erbarme dich – Bogna Bartosz (contralto)
Violinista – Alida Schat
The Amsterdam Baroque Orchestra & Choir
Regente: Ton Koopman (ao órgão)

Em breve, teremos o Blog dos Compartilhamentos Musicais! Enquanto contamos os dias para o lançamento, você pode enviar comentários por email sobre qualquer CM que apreciou.

Grande abraço!
Renato

P.S.: Retirei o trecho abaixo da Wikipedia para quem quiser saber o que é uma ária.

Uma ária, no sentido restrito, é qualquer composição musical escrita para um cantor solista, tendo quase o mesmo significado de canção. Geralmente (mas não necessariamente) usa-se o termo "ária" quando está contida dentro de uma obra maior, como uma ópera, cantata ou oratório e "canção" quando é uma peça avulsa. No sentido amplo, uma ária pode ser destinada a mais de um cantor: para dois cantores, chama-se duo ou dueto; para três, trio ou terceto, para quatro, quarteto e assim sucessivamente. Por exemplo, Bach chamou o duo de tenor e contralto (Wie selig sind doch die) da Cantata BWV 80 de Ária.

No Barroco, esse termo também era usado para designar peças instrumentais, para orquestra ou solista, que constituíam parte de uma suíte. Um dos exemplos mais famosos é a Ária da Suíte nº 3 para orquestra (Ária da 4ª Corda), de Johann Sebastian Bach.

24/12/2008

Compartilhamento Musical 8

Oi, gente!

O Compartilhamento Musical Natalino deste ano apresenta o Oratório de Natal de Johann Sebastian Bach, BWV 248. É uma grande obra composta de seis cantatas, escrita para o período de Natal de 1734. O tempo total do oratório é de quase três horas. Hoje em dia, costuma-se apresentá-lo de uma vez, ou em duas seções com três cantatas cada. Na época de Bach, cada cantata era apresentada em um determinado dia festivo no período do Natal. A primeira cantata, para o dia 25, descreve o nascimento de Jesus; a segunda, para o dia 26, descreve a anunciação dos anjos aos pastores; a terceira, para o dia 27, a adoração dos pastores; a quarta, para o dia de ano novo, trata da circuncisão de Jesus; a quinta, para o primeiro domingo do ano novo, a viagem dos magos do oriente; a sexta, para o dia da Epifania, a adoração dos magos.

Hoje, vou me restringir a sugerir a audição da abertura da primeira cantata. É uma peça musical cheia de júbilo! Com muita empolgação, Bach conclama os crentes em Cristo a louvar a Deus pelo nascimento do Salvador.

Abaixo, posto a letra original em alemão e uma tradução livre em português.

Jauchzet, frohlocket! auf, preiset die Tage,
Rejubilem, exultem!, glorifiquem os dias,
Rühmet, was heute der Höchste getan!
Louvem o Altíssimo pelo que fez hoje!
Lasset das Zagen, verbannet die Klage,
Deixem de lado o medo, expulsem o lamento,
Stimmet voll Jauchzen und Fröhlichkeit an!
Entoem um cântico cheio de júbilo e graça
Dienet dem Höchsten mit herrlichen Chören,
Sirvam o Altíssimo com coros gloriosos!
Laßt uns den Namen des Herrschers verehren!
Louvemos o nome do Senhor!

Estou disponibilizando duas opções para o vídeo
Jauchzet, frohlocket!. Escolha uma (ou as duas)...

1 - Esta versão é com o maestro Nikolaus Harnoncourt. Não gosto da produção do vídeo, mas o som está ótimo, além da excelente interpretação! Tem também uma coisa curiosa aqui: Notem que não há mulheres no coral, apenas meninos. Na época de Bach, era costume os garotinhos cantarem as vozes de soprano e contralto e os mais crescidos as de tenor e baixo (leia o Compartilhamento Musical 1 para mais detalhes). Só para constar, conheci Harnoncourt pessoalmente, em Berlin, em janeiro de 1998... Ai, que saudade daquela viagem!



2 - Esta versão é com o maestro Sir John Eliot Gardiner. Interpretação excelente! Gardiner sempre preza pela empolgação nas interpretações de Bach com a English Baroque Soloists e o Monteverdi Choir.



Grande abraço,
Renato

12/12/2008

Compartilhamento Musical 7 (adendo)

Oi, gente!

Confesso que "excedi-me" um pouco no Compartilhamento Musical 7, sobre a
Fuga em sol menor BWV 578, de Johann Sebastian Bach. Alguns leitores não conseguiram entender bem o que é um sujeito, quanto menos perceber as entradas dele na fuga. Deixe-me tornar isso um pouco mais claro:

Primeiro, vamos rever o que eu disse:

Tudo começa com a exposição de um tema (chamado de sujeito), que é uma melodia declarada por uma das vozes isoladamente.

Mas se não há ninguém cantando, como é que eu devo ouvir "
vozes"? Calma! Vamos aprendendo... O que é uma voz? No Compartilhamento Musical 7 (Daqui por diante, vou fazer uso da siga CM.), quando eu falei "...uma melodia declarada por uma das vozes...", a palavra "voz" quer dizer o mesmo que "linha melódica". Se houver quatro pessoas cantando, há quatro linhas melódicas. Cada pessoa pode entoar uma melodia diferente e, no conjunto, podemos ter uma bela harmonia com 4 linhas melódicas (ou vozes) distintas. Só que instrumentos musicais também têm vozes! Então, na fuga de Bach que ouvimos, as diferentes vozes eram entoadas pelo mesmo instrumento: um órgão. A primeira voz iniciou-se com a mão direita do organista; a segunda, com sua mão esquerda; algum tempo depois, outra voz está nos pés do organista. Pense... Uma voz nos pés! Só em música mesmo!

Mesmo que você não tenha entendido tudo, tenho certeza que você não chegou ao ponto que um amigo chegou. Abaixo, posto seu divertido comentário!

Entendi!

É como se fosse um filme de suspense!

O sujeito está sempre à espreita. Ele se chama Barroso (vc escreveu barroco!) e é mestre em imitação. Talvez por isso possamos confundir o músico com o tal Barroso, um assassino traficante de órgãos. Talvez as tomadas dos pedais sejam do Barroso. Então, depois que o músico se expôs, a tensão foi crescendo até o momento do golpe fatal do Barroso, o tal sujeito. Só não consegui ouvir as vozes que, por certo, clamavam por socorro.

Só lamento o vídeo ter acabado antes do desfecho, quando o sujeito, Barroso, enfim mata o músico e foge num dia de pouco sol em sua BMW 578 (vc escreveu BWV!). Após algum tempo, finalmente o sujeito é preso mas confunde a polícia, com suas múltiplas declarações, o que é até compreensível, já que Barroso é um mestre em imitações.

Tudo bem que é um filme de época, já que se passa entre os séculos XVII e primeira metade do XVIII. Mas achei o nome do assassino pouco comercial. "Barroso" é meio anti climático.

Viu, não foi tão difícil assim!

Então, se você acha que não tinha entendido, não se estressa!

Estou muito feliz escrevendo esses Compartilhamentos. Temos 84 inscritos até o momento e esta semana tive mais 44 assinaturas, totalizando 128 na lista para o CM número 8, futuramente, se for da vontade de Deus. Comentários como os que posto abaixo são muito legais de ler:

Estou começando a me sentir menos ignorante em termos musicais. Vou incentivar (minha filha) a ler seus compartilhamento, também.
(após ler CM No. 7)

...me senti na Áustria. Obrigada, achei bonito e empolgante, só que me criou um problema... Aumentou minha vontade de visitar as terras anglo-saxônicas. Ai de mim! Beijão...
(sobre CM No. 6 – Mozart)

Amigo, que negócio lindo!!!
Mas você tem razão – preciso ouvir mais vezes pra perceber isso tudo.
(sobre a fuga do CM No. 7)

Oi Renato, só passando pra dizer que seus “Compartilhamentos Musicais” são ótimos... Gostei muito.
(recém-ingresso na lista de emails, após ler os CMs do No. 1 ao 7)

Houve também quem ficasse empolgado com o órgão. Eu acho esse instrumento maravilhoso! No passado, em algumas igrejas, era o instrumento por excelência. De bônus, forneço agora um link para mais um vídeo com Ton Koopman. Desta vez, vocês vão ouvir a Tocata em ré menor, BWV 565. Ela é bem conhecida e muitos a associam à história do "Fantasma da Ópera". Só que ela não tem absolutamente nada a ver nem com ópera nem com fantasma (eu, heim...)! Na verdade, a obra é uma tocata seguida por uma fuga. Aqui, ela está sem sua fuga correspondente. Mas chega de fuga! Pelo menos por enquanto. Um outro dia posto um comentário sobre essa obra com mais calma. Aproveitem!



Se souberem de alguém que deseja entrar nos Compartilhamentos Musicais, é só pedir para mandar um email para renatobdacosta@gmail.com pedindo para entrar. Por gentileza, peça para a pessoa mencionar quem indicou o CM.

Grande abraço, e até o CM 8, semana que vem, se Deus quiser.
Renato

05/12/2008

Compartilhamento Musical 7

Oi, gente!

Este Compartilhamento Musical está bem desafiador! Vou ter que mencionar alguns conceitos técnicos, mas peço paciência e persistência. Vai valer à pena!

Hoje gostaria de apresentar a vocês a
Fuga. Calma, não estou conclamando ninguém a pular os muros de canto nenhum! Fuga é um estilo de composição que tem origem em técnicas de imitação do século XVI, mas foi no período barroco (séculos XVII e primeira metade do XVIII) que se consagrou como atividade de composição importante. Imitação refere-se a repetições de material musical já apresentado na música. Basicamente, uma "frase musical" é cantada ou tocada por uma voz ou instrumento e, depois de certo tempo, outra voz ou outro instrumento apresenta a mesma melodia enquanto a primeira continua seu desenvolvimento.

A fuga deriva desse tipo de técnica, só que ela é bem mais complexa. Ela obedece a regras muito estritas, que fazem dela um gênero bastante difícil. Como eu não sou expert em fuga (apenas as aprecio), não vou entrar em detalhes sobre essas regras, mas pensei que seria interessante convidar vocês para fazer um passeio comigo em uma fuga. Não vamos mergulhar profundo, mas faço o convite para "molharmos ao menos nossos pés" nesse mar. Primeiro, vou explicar o que estamos procurando, depois vou dar dicas práticas para vocês aproveitarem mais o vídeo.

Tudo começa com a
exposição de um tema (chamado de sujeito), que é uma melodia declarada por uma das vozes isoladamente. Uma segunda voz entra, então, “cantando” o mesmo sujeito, mas noutra tonalidade, enquanto a primeira voz continua desenvolvendo. As vozes restantes entram, uma a uma, cada uma iniciando com o mesmo sujeito. O restante da fuga desenvolve o material posterior utilizando todas as vozes e, usualmente, múltiplas declarações do sujeito.

Vamos ouvir a
Fuga em sol menor BWV 578, de Johann Sebastian Bach. Foi nas mãos desse gênio que a fuga atingiu o ápice de sua maturidade no Barroco. O que proponho a vocês? Vamos procurar perceber somente as entradas do sujeito (tema)! Vai ser fácil porque eu anotei abaixo as vezes que ele aparece e as contagens do vídeo em minutos e segundos. Primeiro, você vai ouvir a primeira melodia (o sujeito), que o organista vai tocar com sua mão direita logo no início. Quando a mão esquerda entrar em ação, é porque vai entrar a segunda voz, com o sujeito novamente. A mão direita vai continuar seu caminho. Siga o roteiro abaixo:

0:00 - início - mão direita - primeira entrada do sujeito
0:15 - mão esquerda entra - segunda entrada do sujeito
0:32 - mais uma vez
0:45 - desta vez, o sujeito aparece nos pedais do órgão
1:06 - o que chamo de "alarme falso": o sujeito aparece, mas não todo
1:27 - mais uma vez
1:48 - sujeito na pedaleira de novo
2.14 - outra vez, mas está bem escondido aqui
2.47 - de novo nos pedais

* Claro que isso não é uma análise técnica de uma fuga. Há outras fases que não mencionei. Meu objetivo é contribuir com o aprimoramento de sua sensibilidade musical. Aos poucos, progredimos!



Se você achou a coisa toda muito confusa (o que possivelmente vai acontecer), não se preocupe. Veja o vídeo mais vezes. O que propus hoje foi só um exercício; não se esqueça de que ouvir música não se restringe a um mero exercício matemático. Ouvir música é apreciar o belo. Se você não conseguiu "ver" essas entradas de sujeito, não esquenta!

E quem não conhecia este instrumento magnífico, trata-se de um órgão. E esse é dos bons! O organista é, em minha opinião, o melhor hoje vivo. Gosto deTon Koopman porque ele deixa tudo muito interessante. Essa fuga, além de ser muito bem composta, tem a eletrizante empolgação desse holandês especialista em barroco!

Mais uma vez, gostaria de encorajá-los a escrever comentários sobre os Compartilhamentos Musicais. Será um prazer ouvir suas opiniões, dúvidas e sugestões.

Grande abraço,
Renato

31/10/2008

Compartilhamento Musical 5

Olá, gente!

Já dei notícia de morte, mas essa é esquisita. Faz mais ou menos um ano e meio que a pessoa morreu! A demora foi porque eu só soube por esses dias, quando buscava um assunto para o Compartilhamento Musical 5. Falo do excelente violoncelista, Mstislav Rostropovich. E não fiquei menos triste por ter sabido de sua morte tardiamente. Abaixo, alguns trechos da matéria em O Globo de 27/4/07:

Mstislav Rostropovich foi uma das figuras culturais mais amadas da Rússia. Além disso, ganhou fama em todo o mundo como defensor dos direitos civis durante a era soviética. (...) Enquanto estava no exterior, em 1978, o Kremlin o destituiu de sua cidadania... (...) Dias após a queda do Muro de Berlim, Rostropovich levou seu violoncelo e embarcou a Berlim para fazer um concerto de improviso, não anunciado, ao lado dos escombros do muro. "Foi o que meu coração ditou," ele disse mais tarde.

O vídeo que sugiro hoje mostra Rostropovich tocando o prelúdio da Suíte No.1 para violoncelo solo de Johann Sebastian Bach. Amo os sons graves do violoncelo! Além disso, esse é certamente um dos pedaços de música que mais me empolga! A peça é tão bem composta (e tocada)! Reparem como não há necessidade de nenhum outro instrumento acompanhando.



[Dica: Este vídeo está com o som um pouquinho baixo. Ouça do início com o volume um pouco mais alto que o comum.]

Abraço,
Renato

01/08/2008

Compartilhamento Musical 1

Hoje quero compartilhar com vocês um vídeo da obra 'Paixão Segundo Mateus', de Johann Sebastian Bach.

Em um coral típico, há quatro tipos de vozes: duas femininas (soprano, que é a voz aguda e contralto, que é a voz grave) e duas masculinas (tenor, que é a voz aguda, e baixo, que é a voz grave). Da Idade Média até o Barroco (época de Bach), era comum apenas meninos e homens cantarem nos corais das igrejas. Os meninos cantavam as vozes femininas, enquanto as outras vozes ficavam a cargo dos mais velhos.

Nesta versão da 'Paixão', regida por Sigiswald Kuijken, tem um garotinho que se garante! Ele faz um dueto com o famoso contratenor René Jacobs. Notem a segurança do gorduchinho cantando a parte do soprano! Quem sabe, sabe!



Notaram também que são
dois corais dialogando?! Pense!!!

A tempo, contratenor é uma voz masculina mais aguda que a de tenor, podendo até alcançar as notas de soprano.

Abraço,
Renato