O COMPARTILHAMENTO MUSICAL traz anotações informais sobre vários aspectos da música erudita. Aqui procuro encorajar você a explorar esse universo fascinante e a enriquecer sua experiência musical.
Gostaria de avisar que não teremos Compartilhamento Musical de Natal neste ano, no sentido convencional. Isso é porque eu estou tendo uma oportunidade de assistir alguns concertos na Alemanha e na República Tcheca neste fim de ano, uma experiência fabulosa que estou compartilhando em outro blog. Em janeiro, se Deus quiser, continuo as postagens do Compartilhamento Musical. Enquanto isso, convido você a visitar meu outro compartilhamento:
Hoje quero compartilhar com vocês um concerto para violino e orquestra de Vivaldi. O que escolhi pertence ao Opus 8, do qual também fazem parte os concertos chamados “As Quatro Estações” (que pretendo postar futuramente). Ouviremos o concerto No. 7 (RV 242), dedicado ao violinista alemão Johann Georg Pisendel, que costumava visitar Vivaldi em Veneza.
O concerto tem três movimentos, como de costume no Barroco, alternando entre rápido, lento e rápido. O solista é Enrico Onofri, que é acompanhado pelos sempre animados músicos do Il Giardino Armonico, regidos por Giovanni Antonini.
Confesso de cara: Sou louco pela música de J. S. Bach! Recentemente assisti ao concerto do “Proms” de 2010 dedicado a Bach. O “Bach Day”, com a Royal Philharmonic Orchestra (que eu costumo de chamar de ‘a orquestra da Rainha’), apresentou a música de Bach em arranjos para orquestra sinfônica e também obras inspiradas nas obras de Bach. O vídeo é fantástico e foi difícil resistir à vontade de compartilhar todo o programa de uma vez aqui no blog.
Compartilho hoje um arranjo da famosa Tocata e Fuga em Ré menor, originalmente composta para órgão (Tocata já compartilhada no adendo do CM 7). Aqui, apresento o arranjo feito por Leopold Stokowski para grande orquestra. Talvez os mais nostálgicos vão lembrar do filme “Fantasia”, de 1940, em que o próprio Stokowski rege o seu arranjo de Bach. Apesar de gostar de algumas partes do filme “Fantasia”, prefiro esta interpretação menos afetada de Andrew Litton nessa noite do “Proms” de 2010.
Primeiro, percebam que sala de concertos maravilhosa é a Royal Albert Hall! Durante o vídeo, há algumas panorâmicas da sala, inaugurada em 1871 pela Rainha Victoria, que a dedicou à memória de seu falecido esposo, o Príncipe Albert. (Os mais curiosos assistam ao filme “A Jovem Rainha Victoria”.)
Percebam também o colorido que Stokovski, como arranjador, soube muito bem aproveitar do original para órgão. Tenho a tendência de preferir as obras originais, mas também gosto de elogiar uma orquestração bem feita. E essa certamente é uma!
A tempo: O “Proms” é um festival de música clássica que ocorre em Londres, predominantemente na Royal Albert Hall, com concertos diários durante oito semanas no verão. A tradição se iniciou em 1895. Em 2009, o número de concertos chegou a 100. O evento tem cobertura da BBC.
Gostaria muito de saber o que você achou depois de apreciar a obra. Deixe seu comentário após ver o vídeo.
Hoje gostaria de compartilhar com vocês um instrumento curioso, a Harmônica de Vidro. Para ser bem objetivo, retiro uma explicação da Wikipédia:
“A harmônica de vidro é constituída por um conjunto de taças de vidro semi-esféricas, de vários tamanhos, parcialmente inseridas uma dentro da outra por ordem de tamanho, de modo a fazer uma escala diatônica. Essas taças estão montadas num eixo que atravessa o centro dessas mesmas taças, e encontram-se semi-imersas num recipiente com água. Um sistema de pedal aciona o eixo de modo a que as taças girem no eixo. O instrumento é tocado friccionando os dedos em cada uma das taças umedecidas, uma para cada nota.”
Alguns dos compositores que escreveram para o instrumento foram: Wolfgang Amadeus Mozart, Ludwig van Beethoven, Carl Philipp Emmanuel Bach, Gaetano Donizetti e Richard Strauss.
Hoje quem toca para nós é um dos poucos experts em Harmônica de Vidro, o francês Thomas Bloch, ao visitar o programa de TV de Jean-François Zygel. Ele é acompanhado por Philippe Bernold (flauta), Alexandre Gattet (oboé), Francoise Gneri (viola) and Xavier Phillips (violoncelo).Eles interpretam o Adagio para Quarteto e Harmônica de Vidro K 356 (617a), de Wolfgang Amadeus Mozart. Aproveitem!
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Abraço, Renato
P.S.: Lamento o vídeo estar levemente dessincronizado. Espero que não seja tão perceptível.
O Concerto para Violino, Oboé, cordas e contínuo, BWV 1060R, de Johann Sebastian Bach não existe em sua forma original. Sobrevive até hoje apenas um arranjo que o próprio Bach fez, substituindo os dois instrumentos solistas por dois cravos. A partitura reconstruída que temos hoje veio desse arranjo.
O concerto tem três movimentos, que ouviremos aqui na interpretação do excêntrico Nigel Kennedy, fazendo par com Aisling Casey. Ambos são acompanhados pela Orquestra de Câmara Irlandesa.
O elemento de concerto (ver CM 11) é realizado em duas esferas. Numa, os solistas dialogam entre si, enquanto que, noutra, eles se juntam e conversam com a orquestra. Isso vale pelo menos para os dois movimentos rápidos (o primeiro e o terceiro).
No movimento lento (o segundo), o papel da orquestra é fornecer um pano de fundo para um intrincada troca de perguntas e respostas entre os solistas. Este movimento é, para mim, muito especial. Conheci o concerto por este movimento. Estava na casa de um amigo, que me disse de repente: “Tenho algo para te mostrar.” Fomos a um quarto onde sua família usava como depósito e lá estava um aparelho de som antigo, onde ele colocou um LP para tocar. Limpou a agulha da vitrola com um sopro e pôs o segundo movimento desta obra, que eu nunca tinha ouvido. Em meio à musica e aos charmosíssimos chiados do vinil, fiquei paralisado até o fim. Não tinha como descrever com palavras o que eu sentia. O diálogo entre o violino e o oboé era uma coisa muito linda e profunda. A orquestra acompanhando em pizzicato dava uma atmosfera de grandeza e ao mesmo tempo de intimidade ao momento musical. Nunca vou me esquecer da primeira vez que ouvi isso.
O concerto termina com outro movimento rápido, bem empolgante. Na minha opinião, Kennedy e seu grupo tocam mais rápido do que deveria ser, mas são coerentes e retratam bem a empolgação do fim da obra. A propósito, Nigel Kennedy ficou famoso na década de 80 justamente por suas idiossincrasias musicais e seu jeito de se portar em público. Mas apesar das diversas críticas que recebeu (e ainda recebe), ele é um músico de primeira!
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Abraço, Renato
P.S.: Uma breve palavra sobre o vídeo escolhido: Embora Kennedy e Casey sejam excelentes músicos e estejam acompanhados de uma excelente orquestra, confesso que prefiro outras gravações e não considero esta interpretação como sendo de referência. Os músicos tocam instrumentos modernos e tenho a tendência de valorizar mais uma interpretação historicamente orientada, com instrumentos (ou cópias) de época, com técnicas barrocas de performance. Isso de forma nenhuma diminui o valor do talento musical do grupo que postei aqui, mas recomendo que vocês ouçam outras gravações. A razão de eu não ter postado outra é a pobre qualidade de som dos vídeos que encontrei. Mesmo assim, dêem uma olhada na excelente performance conduzida por Nikolaus Harnoncourt, gravada em 1984 (links abaixo). No futuro, se eu conseguir material com qualidade de som e imagem melhor, repostarei o concerto com prazer.
No Compartilhamento Musical 28, sobre Rameau, uma leitora se assombrou com aquele instrumento de teclado que nunca tinha visto nem ouvido: o cravo. Prometi a ela que dedicaria o próximo CM ao instrumento.
Todo mundo sabe reconhecer um piano. No entanto, já é um pouco difícil dizer o mesmo a respeito do cravo, instrumento muito presente na época do Barroco. Pode ser que você veja um e pense que é um piano. Uma diferença importante entre os dois instrumentos é o mecanismo através do qual o som é produzido. As cordas de um piano são percutidas por uma espécie de martelo, que é acionado quando o músico pressiona uma tecla. Já no cravo, as cordas são percutidas após o toque de uma tecla, mas o mecanismo belisca a corda em vez de martelá-la. Uma conseqüência disso tem a ver com dinâmica do som. Enquanto no piano o músico pode obter um som forte ou suave, dependendo da força que aplica sobre a tecla, no cravo obtemos sempre a mesma intensidade, devido à diferença no mecanismo de produção do som. Para suprir essa limitação, alguns cravos têm jogos de cordas diferentes, que associam-se a teclados diferentes num mesmo instrumento. Por exemplo, em um mesmo cravo, podemos obter um som rico e vigoroso usando o teclado principal e, logo acima deste, outro teclado é usado para obterem-se sons mais suaves.
Alguns pensam que o cravo é o antecessor do piano. Eu também sou culpado, pois passei a vida dizendo isso, mas descobri recentemente que não é verdade (História da Música Ocidental – Jean & Brigitte Massin, Editora Nova Fronteira). São apenas primos com um ancestral comum: um instrumento chamado saltério, derivado da harpa, que podia ser arranhado com a unha ou com um plectro (uma espécie de palheta). O piano descende do saltério via um instrumento chamado dulcimer, que era percutido por pequenos martelos. Ao dulcimer acrescentou-se um teclado, com transmissão direta entre a tecla e o martelo. Daí originou-se o pianoforte, em meados do século XVIII. O piano suplantou o cravo porque correspondia a certo tipo de sensibilidade própria ao final do século. O cravo também descende do saltério, mas tem uma linhagem diferente. Vem da espineta, que introduziu um mecanismo ao saltério que lhe arranhava as cordas. No século XVI, da espineta veio o cravo, que também poderia ter um segundo teclado, trazendo a possibilidade de mudança de registro, como descrevemos acima.
Abaixo você pode visualizar os instrumentos que deram origem ao cravo e ao piano. Tratam-se de exemplos, pois cada instrumento pode se apresentar com aparências diversas:
Exemplo de harpa
Exemplo de saltério
O dulcimer descende do saltério e deu origem ao pianoforte. Por esta foto, obviamente, é difícil perceber isso, pois houve ainda vários estágios entre o instrumento aqui apresentado e o que hoje conhecemos como piano.
A espineta descende do saltério e deu origem ao cravo. Dá até para fazer um exercício de imaginação e tentar 'ver' uma harpa dentro desta espineta.
Hoje ouviremos Ton Koopman interpretando o primeiro dos três movimentos da Tocata BWV 916, em Sol maior, de Johann Sebastian Bach, ao cravo.
Como é de costume no fim de dezembro, gosto de compartilhar partes do Oratório de Natal de Johann Sebastian Bach, BWV 248. Para uma introdução a esta obra, visite o CM 8.
Neste ano, resolvi postar um trecho maior: os quatro movimentos iniciais da quinta cantata do Oratório, originalmente apresentada no primeiro domingo do ano novo em 1735, durante o culto matutino na Nikolaikirche. A cantata retrata a viagem dos magos do oriente e sua adoração ao Salvador, Jesus.
I - Coro de abertura – Trata-se de uma explosão de louvor e gratidão a Deus por ter enviado ao mundo o Salvador.
II – Recitativo (tenor) – Passagem do Evangelho de Mateus a respeito dos magos do oriente
III – Coro e Recitativo (contralto) – O recitativo da contralto interrompe os magos, que buscam o Rei dos Judeus, dizendo “Busque-O em meu peito”. A contralto explica que este Rei dos Judeus é a luz que também veio para os gentios.
IV – Coral – Trata-se de um hino a Jesus, que transforma as trevas em luz.
A cantata prossegue com mais sete movimentos, dentre eles, uma ária, um trio, outros recitativos e um coral finalizando a obra. Quem tiver a oportunidade, escute a cantata na íntegra. Aliás, escute o Oratório todo; é música de excelente qualidade!
Meditem nas verdades apresentadas na letra deste trecho tão bem trabalhado por Bach!
Christoph Genz – tenor (evangelista) Bernarda Fink – contralto Monteverdi Choir English Baroque Soloists Sir John Eliot Gardiner – regente
Quero apresentar a vocês um compositor francês de altíssimo gabarito: Jean-Philippe Rameau (1682 – 1774). Rameau contribuiu de forma considerável para a música com obras para cravo, obras sacras, óperas e livros sobre teoria musical, dentre os quais se destaca um importante tratado de harmonia escrito em 1722.
Pièces de Clavecin en Concerts (Peças para Cravo em Concerto) constitui sua única música de câmara. Nesta obra, o cravo não faz meramente o papel de acompanhamento (tipo baixo contínuo), mas é o coração da música, com sua parte escrita de forma completa, obbligato, e mostrando virtuosismo. Um violino e uma viola da gamba juntam-se ao cravo. Ocasionalmente, uma flauta pode substituir o violino ou um segundo violino pode substituir a viola da gamba.
Conheci Rameau através dessa obra, quando adquiri uma gravação com Jean-Pierre Rampal, famoso flautista, acompanhado por Isaac Stern (violino) e John Steele Ritter (cravo), na década de 1990. São obras muito dinâmicas e cativantes!
Hoje vocês apreciam o segundo movimento do terceiro concerto, com músicos do grupo Les Arts Florissants. São obras tão gostosas de ouvir, que quero já deixar declarada minha intenção de postar outras futuramente.
Béatrice Martin – cravo Patrick Cohën-Akenine – violino Nima Bem David – viola da gamba Serge Saitta - flauta
Franz Liszt (1811-1886) foi um grande compositor e pianista húngaro, notável tanto por seu gênio inovador, quanto por seu virtuosismo. É considerado por muitos um dos maiores pianistas de todos os tempos. Sua obra para piano solo “Estudos de Execução Transcendental” é uma série de 12 estudos compostos para músicos de altíssimo nível. O próprio Liszt deu nomes aos estudos, dos quais hoje compartilho dois:
O No. 8 ‘Wilde Jagd’, ou ‘Caça Selvagem’, é uma peça de caráter violento e explosivo, mas contém uma seção intermediária lírica belíssima (a partir de 1:58, no vídeo). Para tocar bem este estudo, o pianista deve ter muita resistência e pulsos firmes, mas também flexíveis.
O No. 12 ‘Chasse-Neige’, traduzido por alguns como ‘Tempestade de Neve’ ou ‘Redemoinhos de Neve’ (como prefiro), é meu estudo favorito na obra. Trêmolos, saltos longos e escalas cromáticas em alta velocidade, são algumas das dificuldades para o pianista. Percebam os ‘redemoinhos’ (a partir de 2:08, no vídeo) na mão esquerda, inicialmente.
Esses foram os dois primeiros Estudos Transcendentais de Liszt que ouvi na vida, há mais ou menos 13 anos. Fiquei tão impressionado com eles, que logo encomendei um CD para ouvir os outros. Hoje você vai ouvi-los na interpretação do excelente pianista russo Boris Berezovsky.
Boa audição!
Deixe seu comentário após ver o vídeo.
Dedico este CM a meu amigo Glauco Vieira Fernandes.
Os dois últimos posts me empolgaram tanto, que cheguei a esquecer: No início de agosto, o Blog dos Compartilhamentos Musicais completou dois anos! E, como tem sido a “tradição”, vou compartilhar mais um trecho da Paixão Segundo Mateus, de J. S. Bach. (Para uma introdução sobre a “Paixão”, leia o CM 15.)
No trecho de hoje, Pilatos acabara de perguntar aos judeus quem preferiam libertar: Jesus, ou Barrabás. Eles escolheram Barrabás e clamaram pela crucificação de Jesus. “Que mal fez ele? Perguntou Pilatos.” Então, um recitativo de soprano (No. 48) responde, contrastanto drasticamente com o ódio demonstrado pelos judeus:
Ele fez o bem a todos nós, Ele deu visão aos cegos, Ele fez os aleijados andarem, Ele nos falou a Palavra de seu Pai, Ele expulsou demônios, Ele consolou os aflitos, Ele acolheu os pecadores, Foi isso o que Jesus fez.
Em seguida, vem a ária No. 49, “Aus Liebe” (“Por Amor”), uma de minhas favoritas na obra. Lembro-me de tê-la ouvido pela primeira vez no feriado de Semana Santa de 1998, quando ainda não era Cristão, e fiquei impressionado. Espero que você medite na verdade cantada aqui tanto como eu fiz naquela época, e seja alvo desse amor.
Cornelia Samuelis (soprano) Amsterdam Baroque Orchestra and Choir Ton Koopman
Hoje é um dia especial para mim. Ganhei minha primeira flauta doce de madeira, graças a Deus. Trata-se de uma flauta doce contralto baseada no original de J. Denner, feita na madeira muiracatiara, pelo excelente artesão Marcos Ximenes. Desde adolescente, eu sonhava com um instrumento profissional e, embora eu não seja um músico profissional, busco sempre o que é melhor, dentro de minhas possibilidades.
Estou muito feliz e agradecido pela nova aquisição e quis hoje compartilhar com vocês um concerto de Vivaldi para flauta doce chamado “La Tempesta di Mare”, ou “A Tempestade no Mar”. Posto aqui os três movimentos: Allegro, Largo (2:08) e Presto (3:38). A obra é interpretada pelo flautista Sébastien Marq, acompanhado por Jean-Christophe Spinosi e os músicos do Ensemble Matheus. Reparem como a orquestra ilustra bem as “ondas agitadas da tempestade” logo no início da obra, com rápidas escalas ascendentes, bem como a calmaria no segundo movimento e, arrisco, uma viagem a todo vapor, no terceiro. E por que não sugerir a leitura da narrativa bíblica no Evangelho de Mateus, capítulo 8, versículos 23 a 27?
Abraço, Renato
Minha flauta em muiracatiara, a mesma madeira com a qual meu pai fez alguns móveis para nossa casa quando eu era criança. No momento, estou seguindo as instruções iniciais do fabricante para “amaciar” o instrumento. Nesta fase, a flauta se adapta à temperatura, à umidade do ambiente, e ao estilo de tocar do flautista. Tenho de tocar todos os dias, seguindo um protocolo específico. Por exemplo, não posso passar de cinco minutos por dia na primeira semana, o que vai aumentar para 10 minutos na segunda, 15 na terceira, etc. Além disso, é preciso disciplina para passar óleo (de amêndoas, no meu caso) na flauta, evitando que ela resseque. São vários os cuidados, mas vale a pena, pois o som de uma flauta nessa madeira é belíssimo!
Estamos presenciando um fato interessantíssimo na música! Pesquisas recentes levaram ao ressurgimento de um instrumento musical chamado Violoncello da Spalla.
Há algumas décadas, o famoso violinista Sigiswald Kuijken teve papel fundamental no re-estabelecimento da técnica barroca de tocar violino. Em 1972 fundou a orquestra La Petite Bande, especialista em repertório barroco com instrumentos de época. (Você pode ouvi-los no Compartilhamento Musical 1.) Um ávido incentivador da chamada “performance historicamente orientada”, Kuijken começou a suspeitar que o que se sabia a respeito do violoncelo no período Barroco talvez merecesse reconsideração. Veja o seguinte trecho de uma entrevista:
“Normalmente, a parte do baixo era escrita ‘basso’ ou ‘basso continuo’ ou ‘violone’, e sempre assumimos que isso significava violoncelo. Agora eu acho que é hora de reconhecer que isso está errado e que não significa violoncelo, pelo menos não no sentido histórico restrito. Em definições de ‘violoncello’ em léxicos alemães e franceses de até mais ou menos 1730, ou mesmo depois, você somente acha menção de violoncelo sendo tocado da spalla, ou ‘no ombro’. Em Veneza e Bolonha, você pode achar pinturas em igrejas de músicos que tocam dessa forma. É quase tão grande quanto nosso violoncelo de hoje e é tocado como uma viola, obviamente não embaixo do queixo ou sobre o ombro esquerdo, o que seria impossível, mas contra o ombro direito com uma cinta ao redor do pescoço do músico. Os exemplos maiores vão além do ombro direito... (...) O instrumento é posicionado quase horizontalmente e ressoa de um modo totalmente diferente do violoncelo tradicional. (...)… em seu célèbre método [para tocar violino], Leopold Mozart nos diz que a Viola da Gamba é tocada entre as pernas, explicando que ‘hoje, até mesmo o violoncelo é tocado de tal forma’, o que implica que anteriormente não era.” (retirado do site Early Music World)
Em 2003, Kuijken indagou ao luthier Dmitry Badiarov sobre a possibilidade de reconstrução da “viola pomposa” (outro nome usado para se referir ao instrumento; às vezes encontro os termos “viola da spalla” e “violoncello piccolo da spalla”). Badiarov disse que, teoricamente, era possível. Juntamente com o construtor de cordas Mimmo Peruffo, Badiarov conseguiu trabalhar no instrumento, que hoje já pode ser ouvido em alguns CDs. O ressurgimento do instrumento foi um dos motivos que levou Masaaki Suzuki a regravar os Concertos de Brandemburgo. O próprio Sigiswald Kuijken, gravou as 6 suites de Bach, que hoje conhecemos como “6 Suites para Violoncelo Solo”, com o Violoncelo da Spalla. Ele acredita que este foi o instrumento para o qual Bach escreveu as suítes.
No vídeo que compartilho hoje, Kuijken aparece em um programa de televisão e toca trechos da Suíte No. 1. Aqui você vai poder ouvir o terceiro movimento. Deleite-se com o som desse novo velho instrumento!
Abraço, Renato
P.S.: Há outros vídeos deste mesmo programa de TV disponíveis no YouTube: o Prelúdio da mesma Suíte e uma entrevista que Kuijken dá logo após a Courante aqui compartilhada. Acho que está em holandês. Se você entende essa língua...
A gravura acima foi feita por um violoncelista, um dos membros fundadores da Accademia Filarmonica di Bologna. Ele faz um desenho em uma das partituras do violoncelo do Opus 4 de Torelli. Note as dimensões do instrumento e seu posicionamento.
O luthier Dmitry Badiarov e a postura adotada atualmente
O Concerto para Piano e Orquestra No. 5, Opus 73, de Beethoven, também conhecido popularmente como “O Concerto do Imperador”, foi dedicado ao Arquiduque Rodolfo, patrono e aluno do compositor. A obra dura em torno de quarenta minutos, com seus três belíssimos movimentos.
Apesar de gostar da obra toda, lembro-me muito bem do impacto que o 2º movimento teve sobre mim em meados dos anos 90, uma época em que eu o ouvia praticamente sem cessar. Eu era capaz de colocar o CD para tocar o “Adagio un poco mosso” vez após vez. Essa música te toma pela mão e te leva para viajar um pouco.
Pretendo, no futuro, escrever comentários mais detalhados sobre este concerto e, quem sabe, postar os três movimentos completos. Pelo momento, gostaria apenas de compartilhar a beleza da música do 2º movimento sem muito dizer. Clique no vídeo e ouça a interpretação do competente Daniel Barenboim à frente da Staatskapelle Berlin.
Obs.: Aumente o volume de suas caixas acústicas mais que o costumeiro; o início da música é bem suave.
Abraço, Renato P.S.: Dedico o CM 23 a meu amigo Mauro Clark, apreciador de Beethoven e de Barenboim.
Estou impressionado e quero compartilhar com vocês hoje a respeito dos castrati!
Desde o século IV d.C., a interpretação errônea das palavras do apóstolo Paulo, “...conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar...” (1 Coríntios 14.34), baniu as mulheres da música sacra. Era comum, então, que meninos e falsetistas cantassem as vozes femininas (vide Compartilhamento Musical 1). Em 1668, o Papa Clemente IX decretou que mulher nenhuma poderia aprender música para trabalhar como cantora. Isso baniu as mulheres também dos teatros, nos estados papais.
Desde o fim do século XVII, é notável o número de garotos que, uma vez tendo seu talento musical identificado, eram submetidos à castração. Está registrado que, em Nápoles, eram castrados entre 3000 e 4000 garotos por ano, os quais eram “exportados” para diversos países. Muitas das famílias desses meninos viviam em pobreza e vislumbravam, nesse SACRIFÍCIO, uma oportunidade.
A voz de um garoto submetido ao procedimento de castração não desenvolvia como a de um homem em seu curso normal, devido à sua nova configuração hormonal. Os meninos, donos de uma voz especial, às vezes encontravam o caminho do estrelato. Entretanto, a verdade é que poucos de fato chegavam ao nível de Farinelli ou Caffarelli. Estes eram estrelas tratadas pelo público semelhantemente ao modo com que hoje tratariam Michael Jackson ou Madonna.
A preeminência dos castrati em relação às meninas tinha muito a ver com o fato de que um jovem garoto poderia ser submetido mais cedo a um treinamento musical pelo qual uma garota de mesmo talento teria de esperar até o fim de sua puberdade, quando sua voz estabilizasse. Isso dava ao castrato uma vantagem de uns 10 anos de treinamento. Além disso, um rapaz pode se submeter a um treinamento fisicamente mais rigoroso que o de uma menina. O resultado era uma “máquina de cantar” com agilidade vocal virstuosística e com o poder de fazer moças desmaiarem de emoção na execução de uma obra musical.
O envolvimento da Igreja Católica no fenômeno dos castrati sempre foi controverso. Em Roma e nos estados papais, a castração era proibida sob pena de morte, mas há notícias de que 32 papas ao longo dos séculos deleitaram-se com o canto dos castrati na Capela Sistina. Os castrati começaram a desaparecer no século XIX, no Romantismo, mas seu fim oficial veio do Papa Pio X em 1903, com seu “motu proprio, Tra le Sollecitudini”. O último castrato de quem se tem notícia foi Alessandro Moreschi (1858-1922), membro do coro da Capela Sistina. Ele foi também o único a realizar gravações. Entretanto, apesar de serem valiosas historicamente, elas apenas nos dão uma modesta amostra do que seria a voz dos célebres castrati. (No YouTube há trechos do canto de Moreschi, mas não vá pensar que era assim que soavam Farinelli e Caffarelli!)
Este misto de beleza artística com crueldade me deixou de cabelo em pé, sobretudo quando adquiri o último álbum de Cecilia Bartoli. Em SACRIFICIUM, Bartoli focaliza repertório composto para os castrati, ressaltando o terrível drama sofrido por milhares de meninos que foram “mutilados em nome da música”. O CD vem com um compêndio sobre os castrati em um livro com detalhes históricos interessantíssimos. Mas o que me impressiona é a dificuldade técnica das obras que foram escritas para este tipo de voz. Bartoli, obviamente uma mulher, esbanja uma técnica primorosa de tal forma, que faz parecer às vezes que a música é mais fácil de cantar do que realmente é, apesar de ela mesma dizer que nunca executou obras tão virtuosísticas. Outro trunfo de Bartoli foi ter convidado Il Giardino Armonico, a mesma orquestra com que gravou seu álbum Viva Vivaldi (vide Compartilhamento Musical 2), para acompanhá-la no projeto.
Hoje compartilho com vocês a primeira faixa do DVD SACRIFICIUM: uma obra do compositor napolitano Nicola Porpora, que também foi professor e empresário dos mais célebres castrati. Trata-se da ária Come nave in mezzo all’onde, da ópera Siface. Ouvindo Cecilia cantar, minha imaginação fica a “ver navios”, tentando compor na mente como soaria a voz daqueles músicos extraordinários.
Hoje tem coisa muito, muito, muito antiga! O grupo Oni Wytars toca música da Idade Média e da Renascença. Sua proposta é envolver diversas tradições musicais que ajudaram a compor a cultura musical européia através dos séculos. Eles integram instrumentos medievais e renascentistas com instrumentos folclóricos contemporâneos árabes e do leste europeu.
Hoje veremos um “saltarello”, que é uma dança medieval (do verbo “saltar” em italiano). A melodia deste saltarello em particular é bem famosa para quem está acostumado a ouvir gravações de grupos de música antiga. Tenho um CD do Grupo Syntagma, daqui de Fortaleza, com uma gravação desta peça e também já ouvi outras versões. Aqui, os músicos do Oni Wytars capricham na improvisação em várias momentos. É bem empolgante!
A lista é para fazer jus aos artistas, mas nem me atrevo a traduzir do alemão os nomes dos instrumentos!
Belinda Sykes – Gesang (canto) Peter Rabanser – Gesang (canto), Ud, Dudelsäcke, Duduk, Frautu paru Carlo Rizzo – Tamburello, Tamorra, Gesang (canto) Riccardo Delfino – Harfe, Gesang (canto) Ross Daly – Lyra Kelly Thoma – Lyra Efrén Lopez – Ud, Tar, Saz Ian Harrison – Zink, Pommer, Gaita Katharina Dustmann – Zarb, Tamburello, Tamorra, Def, Riqq Michael Posch – Block- und Schilfflöten Luigi Lai – Launeddas Marco Ambrosini – Fidel, Schlüsselfidel, Maultrommel, Aufnahmeleitung
Finalmente o violão aparece nos Compartilhamentos Musicais! Fiquei muito feliz em achar uns vídeos de um festival de violonistas virtuosos que aconteceu em 2008 na Rússia. Puxa, como admiro composições bem escritas para esse instrumento! Os músicos aqui estão excelentes também!
Pablo Sáinz Villegas, violonista espanhol, toca Astúrias (Leyenda), da Suíte Espanhola Opus 47 do compositor também espanhol Isaac Albéniz. A peça foi originalmente escrita para piano, como boa parte da obra do compositor, mas é na versão para violão que é mais conhecida.
Artyom Dervoed, violonista russo, toca dois estudos do nosso compositor Heitor Villa-Lobos. Estudos são obras que têm por finalidade o aperfeiçoamento da técnica de execução. O desafio do compositor é escrever algo que sirva a esse propósito, mas que também soe musical. Dervoed nos brinda com os estudos números 7 (início) e 12 (começando em 1:57) do “Villa”.
O russo Dimitri Illarionov toca uma valsa lindíssima, Valse en Skäi, do compositor Tunísio-Francês Roland Dyens. Se eu entendi bem, o termo “skäi” é uma gíria francesa que significa “imitação de couro”, mas aqui faz alusão às roupas dos habitantes da Argentina e do sul do Brasil (gaúchos).
Gente, que obras bem executadas! Aproveitem! Renato
A pedido de uma leitora do blog, que deixou um comentário após ler o Compartilhamento Musical 4, resolvi postar mais uma peça para flauta-doce (desta vez, para flauta-doce contralto).
Georg Philipp Telemann foi um compositor muito versátil. Escreveu todo (ou quase todo) tipo de música durante o período Barroco e viveu até o início do Classicismo. Consta no Guinness, o livro dos recordes, que ele foi o compositor mais prolífico (o que produziu mais obras) de todos os tempos. Telemann foi um compositor que certamente não desprezou a flauta-doce em sua obra. Já ouvi quem dissesse que ele foi o compositor que mais escreveu para esse instrumento. Gostaria de confirmar isso, mas será preciso uma pesquisa mais profunda. De qualquer forma, é mais importante mencionar que ele é um compositor respeitadíssimo e digno de destaque como seus contemporâneos Bach e Handel.
Hoje quero compartilhar com vocês uma fantasia, que é um gênero musical bem livre. Isso quer dizer que não tem uma forma musical rigidamente determinada. Para se ter uma idéia, a fantasia tem suas raízes no improviso. Originalmente, Telemann escreveu suas Doze Fantasias (TWV 40:2-13) para flauta transversa, mas era comum no barroco tocar obras para traverso usando flauta-doce, transpondo a música uma terça menor acima. Trocando em miúdos, uma flauta-doce não toca as mesmas notas de uma flauta transversa; há então a necessidade de fazer tal modificação. Você escuta a mesma música, só que em outra tonalidade e com outro instrumento. A Fantasia No. 3 tem basicamente duas partes. A primeira alterna entre ritmos lentos e rápidos (0:00 Largo, 0:30 Vivace, 1:30 Largo, 2:00 Vivace), coisa costumeira nas fantasias compostas durante o Barroco. A segunda é um Allegro (2:47).
Quem nos brinda com sua ilustre presença hoje é Frans Brüggen. Após concluir seus estudos, foi importantíssimo na propagação da flauta-doce, sendo considerado em seu tempo o mais famoso flautista-doce (se é que esse termo existe). Em 1981 fundou a Orquestra do Século XVIII, especialista em repertório dos séculos XVIII e XIX, com instrumentos de época ou cópias modernas de modelos de época. Hoje ele concentra suas atividades como regente.
Já comentei uma vez, no Compartilhamento Musical 5 (suíte para violoncelo solo, de Bach), e volto a comentar aqui. Quando uma peça para instrumento solo é bem escrita, de fato não há necessidade de acompanhamento. Perceba como a música se sustenta em seu contexto próprio e você não sente falta de mais nada. Aproveite!
Extra: Lançado o Blog dos Compartilhamentos Musicais!
Oi, gente!
Finalmente o blog está no ar! A partir de hoje, você pode ler os Compartilhamentos Musicais diretamente no blog.
Eu queria compartilhar algo peculiar para a ocasião de inauguração do blog e estava sem idéias adequadas, quando resolvi procurar o Germano Ribeiro, meu colaborador técnico. Imediatamente ele respondeu “Compartilha uma ‘abertura’.” Lógico! Nada melhor que uma abertura para “abrir” algo! O próximo desafio foi achar a obra certa. Eu gostaria de algo “leve”. Foi quando lembrei-me de minha infância e veio à memória a Abertura da Ópera Gilherme Tell, de Rossini.
Uma abertura é uma introdução instrumental a uma peça coral ou dramática, óperas, balés... No século XVIII, algumas aberturas tinham a finalidade de chamar a atenção da platéia, que costumava conversar enquanto a música já estava tocando – coisa inimaginável para os padrões de hoje em dia nas grandes salas de concerto. Nas aberturas, geralmente anuncia-se temais musicais que serão ouvidos durante a obra. O gênero desenvolveu-se e há também aberturas que não são designadas para introduzir uma obra, antes constitui-se uma peça de concerto independente.
Gioachino Rossini (1792-1868) escreveu 39 óperas. Algumas bem conhecidas são ‘O Barbeiro de Sevilha’, ‘A Cinderela’ e ‘Guilherme Tell’, cuja abertura escolhemos para a inauguração do blog. Devido a limitações do site de compartilhamento de vídeos que uso como apoio, a música teve de ser seccionada em dois arquivos de vídeo. Há quatro partes na abertura:
Prelúdio [início do 1º vídeo] – uma passagem lenta, começando com um trecho para 5 violoncelos
Tempestade [1º vídeo 2:37] – segmento genial em que se pode ouvir trovões, chuva forte e rajadas de vento pela orquestra toda
Chamado às vacas [início do 2º vídeo] – após a tempestade, a trompa inglesa evoca uma cena pastoral bucólica; uma flauta faz um pássaro
Final [2º vídeo 2:30] – mundialmente conhecido como a música da cavalaria chegando
Há vídeos com qualidade de imagem e som melhores do que o que escolhi, mas fiz questão de apresentar Claudio Abbado, importantíssimo regente italiano. Ele apresenta “nossa” abertura com a prestigiosa Orquestra Filarmônica de Berlin. O vídeo ao vivo traz a atitude que quero ter com este blog: ao mesmo tempo que pretendo apresentar a música do modo mais sério, correto, possível, quero dar leveza a tudo quando for possível.
E para concluirmos nossa inauguração, convido um camundongo bem conhecido, especialmente da infância de vários de nós, para reger Rossini... isto é, se um pato, também bem conhecido, não atrapalhar muito! O filme é de 1935 e muitos de nós vamos lembrar da tempestade que foi aquele concerto! (Consta que o grande maestro Arturo Toscanini viu o filme em um cinema e gostou tanto que subiu à sala de projeção para solicitar um “bis”.)
Vida longa a este espaço musical!
Abraço, Renato P.S.: Se você quer explorar o blog e não sabe como, clique aqui.
No Natal do ano passado compartilhei a empolgante abertura do Oratório de Natal de Johann Sebastian Bach, BWV 248. Neste ano, continuaremos com a mesma obra. Desta vez, estou postando um trecho da segunda cantata do Oratório, que descreve a anunciação dos anjos aos pastores. Escolhi a abertura instrumental, uma “sinfonia” pastoral, na qual os oboés d’amore e os oboés da caccia fazem parte de uma orquestração que simboliza os pastores nos campos guardando seus rebanhos. A música é uma espécie de prelúdio para a anunciação dos anjos em seguida: “...é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor.” (Lucas 2.11)
Já disse em outros CMs que gosto de ter a liberdade de visualizar coisas na música. Antes de ler a respeito da instrumentação desta “sinfonia” e de sua finalidade, sempre a ouvi com uma interpretação pessoal bem peculiar - como uma canção de ninar para o menino Jesus. Seu ritmo “ternário” (tecnicamente, é 12/8) sempre me pareceu embalar o sono do Rei na manjedoura. Ao mesmo tempo, dentro desta interpretação bem diferente, essa não é uma canção de ninar convencional: A música chega a ter graus de tensão que me projetam para o ministério de Cristo na sua paixão... Em outras palavras, em alguns momentos (um leve mistério em 0:53, que vai se desenvolvendo aqui acolá e tem clímax de tensão entre 2:55 e 3:31), consigo perceber uma espécie de prenúncio da cruz já no berço do Salvador recém chegado ao nosso mundo.
Aproveitem esse trecho belíssimo na interpretação de Nikolaus Harnoncourt regendo a Concertus Musicus Wien.
Grande abraço! Renato
P.S.: Para os mais curiosos, percebam os dois tipos de oboé que Bach escolheu para orquestrar esse trecho. Em 0:43, você pode ver os oboés do tipo d’amore (do amor), um pouco maior e com um timbre mais suave que o do oboé comum. Em 3:52, há um trecho significativo em que aparecem os oboés do tipo da caccia (da caça). Os oboés da caccia desapareceram de circulação após o período barroco. Tudo indica que apenas dois sobreviveram e que foram usados para reconstruir o instrumento na década de 70, quando o próprio Nikolaus Harnoncourt, juntamente com Gustav Leonhardt e outros, encabeçava o movimento de música com instrumentos autênticos. Segundo li, Harnoncourt encomendou oboés da caccia para sua primeira gravação do Oratório de Natal em 1973.
Oi, gente! Hoje apresento a vocês o quarteto de cordas!
A configuração com dois violinos, uma viola e um violoncelo é uma das mais importantes da música de câmara. O compositor austríaco Joseph Haydn (1732-1809) é considerado o pai dessa formação, bem como um mestre no gênero.
Li uma vez que escrever um quarteto de cordas é um verdadeiro teste para o compositor. O fato de haver apenas quatro instrumentistas limita as possibilidades sonoras, forçando a música a sustentar-se mais na genialidade da composição em si do que nas potencialidades de uma orquestra, que, naturalmente, tem maior colorido de sons. Haydn iniciou uma gênero de composição que perdura até hoje. Ele era tão respeitado, que o grande Mozart não apenas tocou alguns quartetos com ele, mas também lhe dedicou seis dos que compôs – isso num período em que as dedicatórias eram geralmente dirigidas a aristocratas.
Na época de Haydn, os quartetos de cordas costumavam se estruturar da seguinte forma – quatro movimentos, dos quais o primeiro e o quarto eram rápidos, o segundo era lento e o terceiro costumava ser uma dança (minueto, scherzo, etc.). Hoje compartilho o último movimento do Quarteto de Cordas Opus 76, No. 5, obra escrita quando Haydn já era um compositor famoso, na interpretação do Quarteto Ysaÿe.
Grande abraço! Renato
P.S.1: A tempo, adaptado da Wikipedia:
Música de câmara refere-se a música erudita composta para um grupo pequeno o suficiente para acomodar-se nas câmaras de um palácio. Atualmente, é considerada qualquer música executada por um pequeno número de músicos, podendo um deles ter maior destaque. A palavra câmara significa que a música pode ser executada em salas pequenas, geralmente com uma atmosfera mais íntima. Entre os seus gêneros mais importantes estão o "quarteto de cordas", "quinteto de sopros" e de "metais", dentre outras diversas combinações de instrumentos.
P.S.2: Se você gostou do quarto movimento e quer ouvir o restante do quarteto, eis os links:
Primeiro movimento http://www.youtube.com/watch?v=fi0fR26AVEU
Segundo movimento http://www.youtube.com/watch?v=VbO6Mx6e-ck
Terceiro movimento http://www.youtube.com/watch?v=Txy1PAEyJEM
No dia 1 de agosto de 2008, enviei o primeiro Compartilhamento Musical a cinco amigos. A coisa cresceu! Um ano depois, temos uma lista de emails com 167 destinatários e sei que alguns destes re-enviam os CMs a vários outros. Para comemorar um ano de CM, achei uma boa idéia revisitar a mesma obra que compartilhei no início: a Paixão Segundo Mateus, de Johann Sebastian Bach.
Uma “paixão” é uma composição musical sobre o sofrimento de Jesus Cristo. Várias “paixões” foram compostas, mas indubitavelmente a “Matthäuspassion” de Bach é a mais famosa e respeitada. O texto-base é o Evangelho Segundo Mateus. Um tenor, designado “evangelista”, narra os eventos bíblicos em estilo recitativo, que soa como algo entre o canto e a fala. Os solistas cantam as palavras de vários personagens bíblicos. Além disso, há também textos intercalados, cantados pelos solistas, que interpretam ou aplicam de modo pessoal as passagens narradas nos recitativos. Quando há vários falantes, o coro entra em ação, ora participando da narrativa bíblica, ora comentando-a.
No trecho que compartilho hoje, Jesus havia sido preso e levado à casa do sumo-sacerdote, onde procuravam condená-lo à morte. Do lado de fora, Pedro o segue de longe, quando desconfiam que ele é um dos discípulos. Pedro nega que é seguidor de Cristo e o galo canta, conforme Jesus havia predito. Pedro se retira e chora amargamente, arrependido.
A narrativa acima é apresentada em forma de recitativo, mas quero focar mesmo é no que acontece em seguida. Uma voz de contralto canta como se fosse o pranto de Pedro após negar a Cristo. É a ária Erbarme dich (Tem misericórdia de mim). Trata-se de um dos momentos mais marcantes da obra. A música é tão intensa que às vezes, quando escuto a introdução do violino solista, começo a olhar para dentro de mim e me confrontar. Eu diria com firmeza que é um dos momentos mais sublimes de toda a história da música. Você pode perceber um pouquinho da solenidade desse trecho no semblante de alguns músicos da orquestra no vídeo, logo após o evangelista cantar as palavras “...e chorou amargamente”.
Boa reflexão!
Evangelista – Jörg Dürmüller (tenor) Pedro – Klaus Mertens (baixo) Criada 1 – Cornelia Samuelis (soprano) Criada 2 + solista em Erbarme dich – Bogna Bartosz (contralto) Violinista – Alida Schat The Amsterdam Baroque Orchestra & Choir Regente: Ton Koopman (ao órgão)
Em breve, teremos o Blog dos Compartilhamentos Musicais! Enquanto contamos os dias para o lançamento, você pode enviar comentários por email sobre qualquer CM que apreciou.
Grande abraço! Renato
P.S.: Retirei o trecho abaixo da Wikipedia para quem quiser saber o que é uma ária.
Uma ária, no sentido restrito, é qualquer composição musical escrita para um cantor solista, tendo quase o mesmo significado de canção. Geralmente (mas não necessariamente) usa-se o termo "ária" quando está contida dentro de uma obra maior, como uma ópera, cantata ou oratório e "canção" quando é uma peça avulsa. No sentido amplo, uma ária pode ser destinada a mais de um cantor: para dois cantores, chama-se duo ou dueto; para três, trio ou terceto, para quatro, quarteto e assim sucessivamente. Por exemplo, Bach chamou o duo de tenor e contralto (Wie selig sind doch die) da Cantata BWV 80 de Ária.
No Barroco, esse termo também era usado para designar peças instrumentais, para orquestra ou solista, que constituíam parte de uma suíte. Um dos exemplos mais famosos é a Ária da Suíte nº 3 para orquestra (Ária da 4ª Corda), de Johann Sebastian Bach.